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Em defesa da Medicina de “antigamente”

Diretor da Clínica São Vicente, um dos hospitais mais renomados do Rio de Janeiro, comenta o que pode ser feito para resgatar a “verdadeira Medicina” no Brasil

por Raphael Pereira

Foto de Gianne Carvalho


O cardiologista Luiz Roberto Londres tem 73 anos, sendo 48 deles dedicados à Medicina. É diretor da Clínica São Vicente, do Rio de Janeiro, mas durante sua carreira já trabalhou em diversos hospitais, públicos e particulares, e acompanhou algumas mudanças na Medicina do Brasil. O cardiologista é contra o modelo de negócio das redes de hospitais ligadas aos planos de saúde e critica a consulta médica que transforma o tempo de conversa com o paciente em uma análise de exames. “Hoje, quero ver alguém sair de um consultório sem exames e sem remédio”, desafia. Em entrevista à Revista DOC, Luiz Roberto Londres fala sobre a prática médica atualmente.

DOC – Quais mudanças você percebe entre a Medicina de 48 anos atrás, quando começou na profissão, e a atual?

Luiz Roberto Londres – Antigamente, a Medicina tinha o objetivo indiscutível de tratar pessoas. Os grandes hospitais aqui no Rio de Janeiro eram os públicos e os beneficentes. Em São Paulo, eram os hospitais de colônia (judia, alemã, sírio-libanesa, americana etc.). Havia uma noção clara de que a Medicina é uma missão. O que estava no centro de tudo era o pensamento que norteava a relação médico-paciente, a conversa com o paciente que trazia uma grande parcela de alcance para a busca do diagnóstico correto. Havia também uma ideia de que a Medicina é um dever do Estado e que não poderia haver um conflito de interesses com ganhos financeiros com a ação médica. Quando o lucro passa à frente, a Medicina se deturpa, e é o que está acontecendo. De uns tempos para cá, há mais ou menos 30 anos, começou a haver uma completa deturpação.

DOC – Como você avalia hoje a formação médica no Brasil?

LRL – Muito ruim. As escolas são formadas de qualquer jeito e sem o menor cuidado. Só um país no mundo tem mais escolas de Medicina que o Brasil: a Índia. E quantidade, aqui, não é sinônimo de qualidade. O índice de reprovação de médicos recém-formados é incrível. E esses médicos estão aí, prontos para prestar serviço. Essa visão é que está defasada. Hoje, vemos uma Medicina-diagnóstica. Vemos pedidos de exames cada vez mais crescentes. São pontos capitais.

DOC – O que o médico pode fazer para que a Medicina volte à forma como era?

LRL – Certa vez, aprendi uma frase que diz: “tudo volta ao que era, só que diferente”. O ideal é conscientizar a população de que o Estado tem o dever de prestar assistência de primeira categoria como era antigamente. Trabalhei em vários hospitais públicos e posso atestar como eles eram excelentes. Hoje, vemos as instituições sucateadas, leitos fechados e um desinteresse completo das autoridades. E talvez esse seja o melhor momento para procurarmos a conscientização do povo de que temos direito à Medicina gratuita e de qualidade. Entre os artigos 196 e 200 da Constituição Brasileira existe esse tipo de pensamento. Vivemos em uma democracia. Nós – o povo – somos a autoridade e os que se dizem autoridade são nossos representantes, pagos por nós para prestarem um bom serviço a nós. Conscientizando de maneira clara e objetiva, com uma visão bem construída, conseguimos mudar.

DOC – Para você, qual a importância da relação médico-paciente?

LRL – Tem absoluta importância, total. É como um casamento: sem ela não há Medicina. Fiz uma tese de Filosofia onde digo que a “verdadeira Medicina” é um encontro de pessoas. Ali se passa a verdadeira Medicina. Hoje, quero ver alguém sair de um consultório sem exames e sem remédio.

DOC – Como você define o modelo ideal da Medicina?

LRL – Aprendi que existe uma sequência nas consultas: queixa principal, história da queixa, história familiar e social. Com isso, era possível ligar o tal sintoma, em muitas das vezes, a um assunto que não tinha nada a ver com Medicina, mas sim algo social. Daí se estabelecia um vínculo, uma relação de confiança. Hoje, isso não existe. Não tem sentido.

DOC – Com base nos seus ideais, qual é o diferencial da Clínica São Vicente

LRL – Apesar de ser uma clínica privada, uma das coisas que trouxe como legado foi que aqui não se criam conflitos. Por exemplo: não se distribui dividendos entre os assalariados. Não há conflitos de interesses. Ninguém ganhará mais ou menos em relação a variáveis. E temos a noção de que a primeira coisa aqui não é a gestão, e sim a relação entre o hospital e seus médicos e pacientes. Faço questão de que o índice de satisfação dos pacientes seja de, pelo menos, 97%. Estamos preocupados com o bem-estar do paciente e isso está acima de qualquer outra coisa.

DOC – Você já passou por dificuldades devido a sua forma de trabalhar e pensar Medicina?

LRL – Nunca tive. Todos os profissionais com quem converso entendem que existe uma deturpação de conceitos e aceitam isso.

DOC – Poderia dar um conselho aos leitores da Revista DOC?

LRL – Não abram mãos dos seus princípios e defendam isso de qualquer maneira.

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